CHARGE: SINFRÔNIO - DIÁRIO DO NORDESTE
"Sinfrônio,
chargista do Diário do Nordeste, já teve seus trabalhos repercutidos
nacional e internacionalmente. Com mais de 40 anos de experiência,
considera que vencer nessa arte ainda é tarefa difícil, por conta do
mercado restrito
Charge é um tipo de ilustração que tem por
finalidade satirizar, através de uma caricatura, algum acontecimento
atual. A palavra, de origem francesa, remonta ao fim do século XIX,
significa carga, ou seja, exagera traços de alguém ou de algo para
torná-lo grotesco. A maioria dos chargistas conhecidos são do sexo
masculino e uma das únicas mulheres que se aventuraram a produzir
charges foi Nair de Tefé, pintora, cantora, atriz, pianista e
primeira-dama do Brasil de 1913 a 1914, esposa do presidente Hermes da
Fonseca.
No Brasil, vários nomes se destacaram, como Angeli, com
seu humor anárquico e urbano, especialmente a partir dos anos 1980;
Ziraldo, que começou com as charges, antes de criar o seu Menino
Maluquinho e outros que conseguiram reconhecimento nos últimos anos,
como Maurício Ricardo, que teve vários de seus trabalhos publicados nos
programas Mais Você e Big Brother Brasil.
O Ceará também tem
grandes chargistas. Um dos pioneiros foi José Raimundo Costa,
responsável por revelar o atual chargista do Diário do Nordeste,
Sinfrônio, em 1975. Desde essa época, Sinfrônio tem conseguido
repercussão nacional e até internacional com seus desenhos. "Vários
trabalhos causaram ´frisson´. Não sei dizer qual deles gerou maior
repercussão, mas certamente estes deram muito o que falar: a charge do
Geisel com o Adauto, a do poste da mãe da prefeita, a do Hugo Chavez se
tratando em Cuba (essa deu a volta ao mundo), a dos médicos cubanos, a
do bufê do Abolição, e muitas outras", destaca.
Maurício Silva, chargista da coluna de Neno Cavalcante, tira sua
inspiração das notícias e do espírito moleque do povo do Ceará:
"Cearense é bicho gozador", afirma
Inspiração
A
rotina desses profissionais inclui muita leitura, mas também tem a
"ajuda" valiosa do espírito moleque dos cearenses, no caso de Sinfrônio e
Maurício Silva, que atuam no Estado. "Ninguém é chargista 24 horas.
Basta ficar atento para as notícias, as presepadas dos políticos, o bom
humor das ruas. É só pinçar as coisas engraçadas. A maioria das piadas
já vem prontas. Cearense é bicho gozador", garante Maurício Silva, que
produz as charges da coluna É..., publicada por Neno Cavalcante,
diariamente, no Caderno 3, do Diário do Nordeste.
Para Sinfrônio,
a colaboração dos políticos é extremamente importante. "A rotina básica
é ler tudo que lhe cair nas mãos, até receita de bolo. Eu
particularmente começo o dia lendo os jornais locais e em seguida (santa
internet) os principais do País. Mas devo dizer que em questão de
material de trabalho estamos sendo muito bem municiados pelos nossos
políticos, que são grandes ´colaboradores´", afirma.
Indagado
sobre o porquê de a presença feminina ser tão incipiente entre os
chargistas, Maurício Silva culpa a falta de retorno financeiro. "Sem
machismos ou preconceito, não dá pra ganhar muito dinheiro. É tanto que
elas estão focadas em outros segmentos mais rentáveis como moda, beleza,
cargos na Petrobras, presidência do País. Nair de Tefé foi a primeira
mulher cartunista, não deu bom exemplo, já que depois dela poucas
apareceram para quebrar este estigma que charge é coisa de macho".
Já
Sinfrônio as incentiva a ingressarem nesse ramo. "Com certeza, a charge
ganharia em charme e sutileza se as mulheres também invadissem nosso
território. Vamos fazer campanha para que as mulheres, além de amor,
façam humor. Aí poderemos dizer: ´amor com humor, se paga´".
Klévisson Viana, após passar por jornais, tem trabalhado mais com
ilustração de livros e com charges para publicações de sindicatos e
associações
"Feiura é fundamental"
Para
ambos, as pessoas bonitas sempre são mais difíceis de reproduzir nas
caricaturas. "As feias praticamente já são uma caricatura. É por isso
que o maior drama do caricaturista é desenhar mulher bonita. As bonitas
que me perdoem, mas a feiura é fundamental...na caricatura!", ressalta
Sinfrônio.
A respeito do mercado de trabalho, tanto Maurício
Silva, quanto Sinfrônio concordam que é bem restrito. "O que tem de
moleque bom de traço por aí não está no gibi. Só que o mercado é um ovo.
Os quatro jornais todos têm os seus titulares que não abrem nem pro
trem. O jeito é ir para a mídia alternativa, internet", expõe Maurício.
Livros
Klévisson
Viana, cearense de Canindé, encontrou na ilustração de livros um
caminho promissor para expor sua arte. Após atuar por alguns anos em
jornais, Klévisson optou pelo mercado editorial e charges de publicações
de sindicatos e associações. "Hoje, trabalho para diversas editoras
nacionais e até do exterior. Um livro que gasto, em média, duas semanas
para ilustrá-lo, me remunera para o mês inteiro. Sem contar que a
ilustração de livro não é uma obra efêmera como a charge. A ilustração
de livro se eterniza nas escolas, nas estantes, nas grandes bibliotecas,
e por esse lado é muito mais gratificante".
FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1315345