" Escritor e Colunista do O POVO, Audifax Rios, morre aos 69 anos "
" Audifax foi ilustrador, tem livros editados
pela Fundação Demócrito Rocha, além de revista que mistura cordel,
ilustrações e crônicas "
" O escritor e colunista do
O POVO Audifax Rios faleceu por volta das 16 horas deste sábado, 25, aos 69 anos, depois de sofrer um infarto. Ele estava em
Santana de Acaraú, terra natal, onde gostava de passar o tempo com a família quando veio a óbito, segundo Sérgio Braga, amigo do escritor.
Braga lamenta a morte do "amigo e irmão", dizendo que Audifax havia comemorado seu aniversário de 69 anos no dia 16 de abril.
Audifax
foi ilustrador, tem livros editados pela Fundação Demócrito Rocha, além
de revista que mistura cordel, ilustrações e crônicas.
A missa acontecerá neste domingo, 26, às 15 horas, no cemitério
Jardim Metropolitano e o enterro está marcado para às 16 horas.
O cantor
Falcão
lamentou a morte do amigo, afirmando que será uma grande perda para o
ceará, mas que ele ficará na memória. "Ele era nosso amigo e irmão. Ele
vai fazer muita falta ao ceará", diz ele emocionado.
Veja última crônica escrita pelo artista Audifax Rios nesta sexta-feira, 24, ao jornal O POVO:
Acaraú,
rio das garças. Ato primeiro, assim que me apeio na terrinha, uma
chegada na beira do rio, que é também dos acarás, no antigo porto das
canoas, a fim de dar uma conferida em seu leito e arredores. De costas
para a igreja matriz, oração silenciosa destinada aos peixes e aves,
também criaturas de Deus.
Em volta um rosário de serras: Meruoca, Madeiro,
Mucuripe, Jucurutu, Dois Irmãos e o Serrote da Rola, portal da cidade.
Todos esses morros circundando a cidade que, por isso mesmo, já teve, em
priscas eras, o topônimo de Curral Velho. Verdinhos como todos os chãos
da redondeza. Porém o caixão do rio, que devia estar abarrotando neste
mês de chuvas mil, dá é tristeza. No largo dos seus duzentos metros,
apenas uns míseros dez comportam o espelho d’água que, num inverno de
vergonha, deveria estar de ponta a ponta.
A oração é uma mistura
de reflexão sobre a história e relembranças dos tempos de eu menino.
Ali, onde o rio lambe a ponta do Serrote da Rola, foi onde os índios
Camocim deixaram de perseguir Frei Cristóvão de Lisboa e seu séquito,
deixando em paz o missionário e intatas as imagens de Cristo e Senhora
Santana, postas num nicho natural de pedras cobertas de orações de
agradecimento pela vida poupada e a promessa de construir uma capela sob
invocação da avó do Homem. Isto lá por mil seiscentos e lá vai
cacetada, compromisso pago um século depois.
Consta que os Areriú
eram a tribo da nação Tremembé menos belicosa. Daí a índole pacata do
povo de Santana, pouco afeito a acirradas lutas por terra ou poder, o
que seus circunvizinhos exercitam com cheiro de sangue e morte. Os
nativos dessas paragens são historicamente ordeiros e dados às cousas do
espírito, chegados à educação e cultura.
Deixando a história de
lado, percorro um passado bem mais recente, o tempo dos cangapés no Poço
da Luzia, pescarias com garrafa furada, peladas na “croa”. Aquele platô
de areia grossa era o campo onde treinava o time de futebol do Ari
Fonteles para depois se apresentar na baixa da Ponte do São João. Os
craques eram filhos de canoeiros, pescadores, agregados do sítio do avô
Martiniano Carneiro, no Rio do Meio. Lembro-me bem de Caboré, Tirisca,
Chaga Brechó, Nagib, Zé Buzêga, netos do Binga e Antonio Maria. E, se
duvidar, até o Chicão da Divindade que era ralfe do Esporte, o time dos
homens. Havia também o Manel da Amélia que era a cara do Ademir da Guia,
o fogoió do cabelo pixaim. Tirisca e Nagib eram nomes de guerra,
homenagem a dois atletas do Guarany de Sobral.
Por falar em
Chicão, lembro outro filho da Divindade, Raimundo, este, canoeiro, que
teve um infarto fulminante desaparecendo na correnteza do rio cheio, o
corpo encontrado entre garranchos, muito longe, dias depois. Era uma
sexta feira santa. E a morte, por motivo semelhante, do Marcos Aurélio, o
alegre companheiro Louro, quando tomávamos banho no Escorrego, nas
ribanceiras do Escapa Bezerro. Presentes a esta tragédia, também,
Vitoriano Cordeiro, João Américo, Mundola Cavalcante, Sibirá, um
pescador, e um menino do rio, aliás, quem tropeçou no corpo inerte, à
beira do poço enlameado. Era véspera de Natal de 1965, por aí...
Por
essa época corria o boato da aparição de visagens na dita coroa e fomos
conferir acompanhados de Wagner Carneiro, Edmar Facundo e Luis Felinto.
Lá já se encontravam Rogério Cavalcante e Edmar Carneiro, convidados
para uma aventura de homem. De repente, sob um luar de agosto, por trás
de um arbusto seco, surge, envolto em cortina de fumaça, um vulto
descomunal com vestes brancas, clamando por muita reza para sua
salvação. Rogério e Edmar, pernas pra que te quero. A tal assombração
era apenas o Zé Gilberto, motorista do Padre Joviniano que, com a batina
do patrão, encenava o auto de medo a uma pequena plateia pábula de
coragem. Surtira efeito para gostosa gargalhada do Zé que era também
juiz de futebol e técnico do time do Ginásio, mentor dos pupilos
Valdetário, Cardozinho, Valceli, Vilemar e outros menos goleadores.
Edmarzinho e Rogério é que não acharam graça nenhuma da marmota
espalhada aos quatro cantos da cidade com comentários desabonadores à
bravura dos dois.
Naquele tempo a coragem era um requisito indispensável, primordial mesmo, para a transição de pivete para cabra macho."
FONTE: Redação O POVO Online